sábado, 21 de janeiro de 2017

O que é o objeto indireto de interesse (dativo ético)

        E-mail de Emiliano P.: “Professor, como se classifica o pronome ‘me’ que aparece na frase ‘Não me abra esta porta’? Trata-se de um objeto indireto ou de um adjunto adnominal?”
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       Caro Emiliano, alguns classificam esse pronome como objeto indireto de interesse. Ele na verdade não exerce função sintática; corresponde ao chamado dativo ético, ou de proveito, e não passa de um expletivo (partícula de realce). Sua função é indicar que o emissor está vivamente interessado em que a ação se realize (ou não). Quando a mãe diz ao filho: “Não me suje essa roupa”, ela quer dar ênfase à proibição. O menino sabe que, se não obedecer, vai contrariá-la e pode levar umas palmadas.    
      Não se deve confundir o dativo ético com o objeto indireto de referência. Se alguém diz: “O sofrimento dos outros me é indiferente”, está relacionando o enunciado da oração à sua pessoa. Que dizer que, para ela, pouco importa a dor dos outros.
     Atenção para a ambiguidade que aparece numa frase como: “O mundo me é indiferente”. Isso pode significar que o mundo é indiferente para essa pessoa (ela é que manifesta indiferença pelo mundo) ou que o mundo é indiferente a essa pessoa (ela é objeto da indiferença do mundo). Neste último caso o pronome não é objeto indireto, e sim complemento nominal.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Ofertas que não dá (ou "não dão"?) para perder?

E-mail de Suzana F.: “Professor, vi na vitrine de uma loja a inscrição ‘Ofertas que não dá para perder’, O verbo dar pode ficar no singular? O correto não seria ‘dão’? Obrigada.”
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           Caro Suzana, o correto é mesmo “dá”. Há nesse anúncio um substantivo (ofertas) modificado por uma oração chamada adjetiva, que se inicia pelo conectivo “que” (pronome relativo).
          Esse conectivo, de fato, retoma “ofertas”, que está no plural. Mas “ofertas” não é sujeito do verbo “dar”, e sim objeto direto do verbo “perder” (o que não dá é “perder as ofertas”). Alguns chegam a cometer pleonasmo, reforçando o objeto com um pronome oblíquo: “Ofertas que é impossível perdê-las”.
          Suponha que, em vez de “dá”, aparecesse uma expressão equivalente (por exemplo: “é impossível”). Ninguém diria “ofertas que são impossíveis perder”, mas sim “ofertas que é impossível perder”.  
          Esquematizando a estrutura, temos: ofertas (as quais) -- não dá --          (para) perder (as quais, ou seja, perder as ofertas).
           Mesmo que se considere a oração iniciada pelo “que” como consecutiva, não se pode considerar “ofertas” como sujeito do verbo “dar”. O enunciado equivaleria a: “ofertas tais, tão boas, que perdê-las (sujeito) não dá.”

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O que há de errado em "fazer uma colocação"?

   E-mail de Marisa L.: “Professor, o que há de gramaticalmente errado em dizer: ‘Quero fazer uma colocação’? Por que se critica tanto essa construção? Obrigada.”
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     Cara Marisa, não há nada de gramaticalmente errado em alguém dizer que querfazer uma colocação”. O problema é mais semântico.
Entre os sentidos de “colocação”, está o de “tomada (física) de posição”. É possível que esse significado tenha se estendido para uma “tomada de posição” no sentido intelectual, moral, ideológico; nesse caso, traduziria o modo de o indivíduo “se colocar” quanto a um tema polêmico.  Não é à toa que a expressão aparece muito nos debates políticos e nas discussões universitárias.

O problema é que a expressão, além de pomposa, é semanticamente pobre. O uso contínuo transformou-a num clichê que deve ser evitado em prol de sinônimos mais claros e expressivos. Por exemplo: “Quero manifestar minha opinião (ou ‘meu ponto de vista’)."


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Uso de "o mesmo"

         E-mail de Luciene S.: “Professor gostaria de saber se o emprego ‘o mesmo’ está correto nesta frase: ‘Encontrei ontem meu professor. O mesmo me disse que a prova seria antecipada para amanhã’. Obrigada.”  
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Cara Luciene, “o mesmonão deve usado em lugar de pronome pessoal. O recomendável em construções como essa é usar-se mesmoele” (e flexões): “Ele me disse que a prova seria antecipada para amanhã”.

O caso é diferente quando “o mesmo” retoma não um substantivo, mas uma oração. , sim, a língua aceita bem. Veja um exemplo: “Pedro alugou uma casa em Camboinha. O mesmo farei eu”. 

Enfim, “o mesmo” é bom português quando equivale a “a mesma coisa”. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Sobre o emprego do gerúndio

E-mail do leitor Fábio: “Professor, em seu artigo sobre ‘gerundismo’ (http://www.chicoviana.com/escritos.php?id=738), o senhor afirma que se deve evitar o gerúndio com dois sujeitos.

          “Queria saber se o gerúndio está bem empregado nesses contextos: (a)‘As escolas devem, então transmitir valores de estima ao meio ambiente, mostrando que ações individuais são também vitais para a resolução da questão’; (b) ‘Porquanto, muitas pessoas buscam levar vantagem sempre, sem se importarem com o outro, acentuando a existência do individualismo...’”.
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         Caro Fábio, na frase (a) não existe problema com o emprego do gerúndio, pois o sujeito do verbo “mostrar” é o mesmo da oração anterior (as escolas): “...e mostrar que ações individuais...” ou “...para mostrar que ações individuais...”.  
         Em (b), contudo, há falha coesiva; o que acentua o individualismo não é o sujeito “muitas pessoas”, mas sim toda a informação dada nas orações anteriores. Para evitar o truncamento do enunciado, deve-se dizer: “Isso acentua o individualismo...” ou “o que acentua o individualismo...”.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A flexão verbal na voz passiva

        E-mail de E. O.: “Professor, estava lendo sua publicação sobre voz passiva e fiquei com uma dúvida. Na verdade, é algo que sempre me confundo e queria entender de uma vez. Eu estava fazendo um relatório para um projeto final de uma disciplina e, por ser relatório, utilizamos muito a voz passiva. Durante todo o trabalho, eu escrevi: ‘Realizou-se os ensaios para obtenção dos parâmetros necessários’, porque o que eu achava era que manter o verbo no singular estaria indeterminando o sujeito que realizou. No entanto, agora fiquei pensando que deveria ser ‘Realizaram-se os ensaios’, mas achei que esse caso não servisse para indeterminar o sujeito. Então eu queria saber: Utilizar o verbo no singular nesse caso que falei está errado? Eu só poderia usá-lo para indeterminar se viesse uma preposição depois do verbo? Deixar o verbo no plural para o exemplo que citei da minha frase mantém o sujeito indeterminado? Agradeço o esclarecimento.”
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            De acordo com a norma culta deve-se dizer “Realizaram-se os ensaios”, pois o sujeito dessa oração é “os ensaios”, que está no plural. O motivo: sendo o verbo “realizar” transitivo direto, o complemento “os ensaios” passa a sujeito de uma voz passiva (Os ensaios foram realizados).
         Muitos estudiosos da língua, no entanto, defendem que também com os verbos transitivos diretos o “se” pode indeterminar. Desse ponto de vista, seria admissível a construção “Realizou-se os ensaios”. Qual das duas escolher? Se o texto é formal, o mais prudente é seguir a norma (Realizaram-se os ensaios). Esse é o tipo de construção pedido, por exemplo, em provas de concursos públicos, que se pautam numa visão estritamente normativa da língua.
         Quanto à sua última pergunta, uma observação importante: flexionar o verbo no plural não indetermina o sujeito (que é “os ensaios”) mas indetermina o agente; não se sabe por quem os ensaios foram realizados. É próprio da chamada passiva sintética, feita com o “se”, não indicar o autor da ação. Isso mostra que o “se” apresenta certa ambiguidade nesse tipo de estrutura; ao mesmo tempo que apassiva, fazendo o antigo objeto direto aparecer como sujeito, ele suprime o agente. Daí a tendência a considerá-lo uma partícula de indeterminação.
         O ideal seria que houvesse liberdade flexional, respeitando-se a ênfase que se queira ou não dar ao sujeito. Quem diz “Aluga-se ternos” quer destacar o fato de que alguém (não interessa dizer quem é) aluga os ternos, e não o de que “Os ternos são alugados”. Já numa frase como “Murmuravam-se preces”, o destaque recai em “preces”. O autor enfatiza o fato de elas “serem murmuradas”; daí o verbo no plural. Infelizmente a gramática não acolhe esse tipo de explicação, cuja base é mais estilística.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Sobre a regência do verbo "ter"

E-mail de R. C: “Professor, na frase ‘Eu tenho os olhos abertos’, como se classifica o predicado? O verbo ‘ter’ aí pra mim funciona como de ligação... Mas é um verbo significativo, não é?”
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         Em “Eu tenho os olhos abertos”, o predicado é verbo- nominal. Além de o verbo “ter” ser significativo, ocorre um atributo (abertos) que indica o estado do objeto (olhos) no momento da ação.
O verbo “ter”, nesse caso, equivale a “manter”. É como se o emissor dissesse: “Eu mantenho os olhos abertos”, o que indica uma ação voluntária e provisória à qual se vincula o predicativo “abertos”.

         Isso é diferente de dizer, por exemplo, “Eu tenho os olhos claros”, em que o predicado é apenas verbal. “Claros”, nesse caso, qualifica o objeto (olhos) independentemente do momento da ação; classifica-se como adjunto adnominal, e não como predicativo.